AfroReggae na Mídia, Blogs Aliados, Vigário Geral
CCWS: Blogs, vídeos, artigos… Confira as homenagens de nossos parceiros!
Se é verdade que o AfroReggae não sai da mídia tradicional, também é fato que ele está nos veículos mais diretos, pessoais e modernos de nossos tempos cibernéticos: Os blogs e outras ferramentas… Cada um com sua forma e possibilidades de comunicação, o que importa é informar e mais do que isso, expressar sua maneira de pensar e sentir. Conectar mentes e corações, ideologias e ações. Veja algumas manifestações que recebemos pela inauguração do Centro Cultural Waly Salomão. Os Blogs Prosa Pontes, do Pontes, Farme Rio, com texto de Carol Delgado e o Blog Suburbano Convicto, de Alessandro Buzo. Não deixe de ler também os textos de Marcelo Zacci, do Overmundo, Um Rio e do produtor musical André Cozta, Eu gosto é de barulho. Ah, e assista também o vídeo produzido pela Guru filmes sobre a Inauguração do Centro Cultural.
Blogs:
Blog Suburbano Convicto – Alessandro Buzo
Textos:
Eu gosto é de barulho
Por André Cozta
Sempre fui muito musical, sempre associei tudo na minha vida à música. Lá em casa, durante a minha infância, o rádio estava sempre ligado em alguma AM que tocava os sucessos populares da época. Mas, era a música que minha mãe e minhas tias ouviam. Ainda não era o que eu gostava de ouvir. Ainda nesta época, ficava fascinado ao ver os desfiles das escolas de samba do Rio, por que adorava aquele som da bateria. Gostava da “porradaria”, daquele barulho todo.
Aos 8 anos de idade, comecei a conquistar minha independência musical, ganhei um toca-discos de Natal e, logo em seguida, para meu regozijo, um LP ao vivo do Elvis Presley no Madison Square Garden. Adorava ver seus filmes na Sessão da Tarde, vê-lo cantar e dançar daquela forma diferente. Era meu primeiro contato com o rock, que viria mais tarde, mudar minha cabeça e minha vida.
Na adolescência, após ouvir “Hurricane”, do Bob Dylan, pensei: “´Tá aí o som.” E fui atrás de mais sons, queria ouvir o tal de rock and roll. E, se a primeira música que ouvi foi Hurricane, que traduzida para o português é furacão, posso afirmar que foi como um furacão que o rock chegou em minha vida.
Descobri Beatles, Stones, Black Sabbath, Van Halen, entre tantos outros, mas, não posso negar: pirei quando ouvi pela primeira vez um disco do Led Zeppelin. Achei aquele som diferente de tudo, um rock visceral. As roupas que usavam, os cabelos de Robert Plant e Jimmy Page, levavam-me a um fantasioso passado distante. Pareciam magos da Europa Medieval.
Até hoje, digo a quem pergunta, que gosto de muitas bandas, mas, este ranking não inclui Led Zeppelin: “a maior orquestra de todos os tempos”. Está acima de comparações.
Mais uma vez, descobrindo o rock and roll, sentia-me atraído pelo barulho, pelo som visceral de guitarras e bateria pesada. Depois, descobri o punk rock, apaixonei-me por Ramones, mas, também conheci o rock progressivo, que vinha na contra-mão daquela guitarrada toda que eu gostava tanto. “ The Dark Side of the Moon”, do Pink Floyd, eu ouvia a portas fechadas e com a luz apagada. Àqueles que curtem viajar usando substâncias químicas, digo: não precisam de nada disso, ouçam este disco apenas e não estraguem vossas saúdes.
Em 2006, trabalhando no evento em que a Banda AfroReggae tocou como banda de abertura do inesquecível show dos Rolling Stones na Praia de Copacabana, tive a oportunidade de apertar a mão e falar com Keith Richards (com certeza, um dos “inventores” da guitarra e do rock and roll), dizendo: “por causa de sua música, por causa de sua guitarra, tornei-me um produtor; muito obrigado por tudo.” E é a mais pura realidade, não tornei-me produtor somente por causa dele ou dos Stones, nem mesmo somente por causa do Led Zeppelin “a maior orquestra de todos os tempos”, mas, por causa de um conjunto de bandas e músicos que me fizeram abrir as ideias, inclusive, para a percepção de mundo, de vida, de sociedade.
Toda esta mudança que, principalmente, as bandas inglesas fizeram em minha vida, culminaram no” rock brazuca”, ouvindo as bandas dos anos 80. Legião Urbana, principalmente, veio para arrematar esta revolução que já ocorria comigo
Hoje em dia, infelizmente, as bandas não surgem mais com o propósito de outrora. Mesmo de forma equivocada, em alguns casos, as bandas de rock dos anos 60, 70 e 80, carregavam em si um ideal. E é aí que eu quero chegar.
A partir dali fui crescendo, tornando-me um ser pensante, militando no movimento estudantil lá em Porto Alegre. E quando tornei-me produtor de bandas, ficava questionando-me por que os músicos, as bandas lá na minha terra, não aproveitavam a força que possuíam (pois o rock gaúcho estava em crescimento, com muitas bandas fazendo sucesso e com suas músicas tocando em rádios locais) e aproveitavam para lutar, porque não trabalhavam para mudar, minimamente que fosse, a realidade dos mais necessitados.
E Deus, que escreve certo por linhas tortas, mas, às vezes por linhas bem retas, trouxe-me para o Rio de Janeiro, onde, uma semana após minha chegada, já estava trabalhando no AfroReggae.
E no AfroReggae pude ver exatamente o que sempre gostei: porrada musical, pancadaria no tambor, na percussão, muito barulho. E o barulho em prol de um ideal, de uma sede de mudança, de revolução. Um barulho que, com muita consistência, acabou atraindo a atenção de muita gente no Rio, no Brasil e no mundo.
Lembro quando há 7 ou 8 anos trabalhei no show de despedida do antigo Centro Cultural de Vigário Geral. Lembro da luta que foi enquanto lá estive (fui produtor do AfroReggae entre 2001 e 2006) para que o Centro Cultural Wally Salomão saísse do papel e se tornasse uma realidade. Nâo apenas como mais um espaço para aulas e oficinas, mas, com a pompa e a força que o AfroReggae tem de, como se diz na gíria aqui no Rio “chegar chegando”. E o AfroReggae sempre que “chega chegando” vem para impressionar e ficar. Finca a bandeira e não sai mais.
Pois isto aconteceu no último dia 26 de maio. Foi um prazer inenarrável ver aquela festa dentro de uma das favelas mais talhadas e marcadas pelo preconceito neste país, devido ao episódio de 1993.
O Centro Cultural Wally Salomão tornar-se-á, tenho certeza, uma referência cultural no Rio de Janeiro. E, para o turista desavisado que perguntar onde fica, não receberá como resposta Copacabana, Ipanema, Centro da Cidade, receberá como resposta: “Fica em Vigário Geral’.
O AfroReggae é isto: visceral, porradaria, percussão marcante. Há dança, há teatro, há circo, mas, vou morrer tendo bem guardado em meus ouvidos o som visceral dessa percussão que toca, que sai da favela para o mundo, e revoluciona, atraindo gente dos quatro cantos do planeta, ao menos, com a curiosidade de olhar para o AfroReggae e descobrir que sinergia é esta. E isto me atrai, afinal, “eu gosto é de barulho”.
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Um Rio
Por Marcelo Zacchi
O Rio é uma cidade partida. O Rio é uma cidade de cidades misturadas. O Rio é uma cidade única em que as duas afirmações podem paradoxalmente conviver com o mesmo grau de verdade. Ou, para falar com Caetano Veloso, tomando emprestada uma descrição que ele propõe para o Brasil, “com uma graça cujo segredo nem eu mesmo sei, entre a delícia e a desgraça, entre o monstruoso e o sublime”.
O problema é que tendo sido sempre assim, o Rio se acostumou, e a cidade foi tomando a forma dessas divisões. A crença difusa de que a delícia e o sublime da cidade poderiam sobrepor-se a tudo permitiu conviver por tempo demais com desigualdades e descuidos intoleráveis. A multiplicação de fronteiras, embalada pelo declínio econômico e pela expansão das armas, impôs-se minando a vocação para o encontro. “Favela” e “asfalto” converteram-se na imagem síntese de uma cidade que tinha – tem – tudo para ser muito mais plural e bela do que isso.
Nesta quarta-feira o AfroReggae inaugura em Vigário Geral o Centro Cultural Waly Salomão. Batizado em homenagem ao poeta falecido em 2003 e que ao lado de Caetano e de Regina Casé esteve entre os padrinhos de primeira hora do grupo, o centro é fruto de quase uma década de construção, avançando um passo após o outro pelos meandros da captação de recursos e da mobilização de parceiros, desde o lançamento das fundações em 2002 (que precisaram ser profundas, por estarem, como todo o bairro, localizadas sobre uma área aterrada) até os quatro andares de hoje e a praça, também nova, que os circula. O resultado é um espaço de criação e produção artísticas que não deve nada a nenhum outro da cidade, em infraestrutura, equipamentos e excelência, e que passará a abrigar as atividades de música, teatro e dança do grupo e outras tantas – culturais e cidadãs – que certamente surgirão com os muitos encontros proporcionados pela nova casa.
Mas se já é inspirador por sua qualidade e pelo cotidiano que abrigará, o CCWS estimula também pelo que guarda de história e sentidos. Foi este mesmo Vigário Geral, notabilizado pela chacina que o tempo não permite esquecer (e é bom que seja assim), que motivou Zuenir Ventura a cunhar a expressão “cidade partida”, em um 1994 tão distante quanto presente na persistência dos dilemas vividos pelo Rio. De lá pra cá, a história foi contada cada vez mais por novos movimentos surgidos nas áreas da cidade em que estes dilemas se vivem de forma mais presente. Com vigor e originalidade admiráveis, grupos como o próprio AfroReggae, a CUFA, o Observatório de Favelas, o Nós do Morro – para exemplificar aqui com apenas os mais conhecidos, reunidos desde 2007 na aliança “Favela a Quatro” – surgiram e espalharam-se cidade afora, lançando pontes, abrindo canais de transformação e assumindo a responsabilidade de renovar forças e apontar caminhos diante da violência e da exclusão enraizadas.
Pouco a pouco, assumiram também o protagonismo em uma esfera pública que sempre lhes negou voz, mais ainda em primeira pessoa. Não é casual que o novo centro chegue quase ao mesmo tempo que a nova versão do “Cinco Vezes Favela”, marco do cinema brasileiro na década de 60, que ganhará em agosto uma atualização, dirigida agora por jovens cineastas residentes em favelas. E não é exagero propor que nesses movimentos estão concentradas hoje a substância e a energia vitais para a reversão das divisões apontadas no início do texto. Recuperar a vocação do encontro para desfazer fronteiras. Vislumbrar um horizonte – e uma agenda pública – de integração, mais ainda do que de mistura.
Construído – ou conquistado – ao longo dos anos juntamente com essa história, o novo centro surge assim como um verdadeiro marco urbano de seu significado. Porque símbolos importam, e este é um símbolo que importa muito, um contraponto oportuno à Cidade da Música na demonstração do que a vitalidade criativa e associativa do Rio é capaz de produzir. É belo e estimulante que seja Vigário a recebê-lo, porque não poderia ser mais marcante a evidência da capacidade de recuperação da cidade mesmo diante dos seus reveses mais profundos.
Por isso é que os integrantes do AfroReggae gostam de dizer que este Centro Waly Salomão não é um centro cultural de Vigário Geral, mas um centro cultural da cidade do Rio de Janeiro, em Vigário Geral. Um espaço concebido e projetado para isso, pronto para receber os moradores de toda a cidade. E para assim projetar adiante o sentido de ambição coletiva que permitiu concretizá-lo: como todo bom espaço urbano e público pleno de significado, irradiando de sua história e de seu dia-a-dia a visão e os enlaces necessários para os passos adiante por cumprir em convívio e igualdade.
É dessa visão e das possibilidades de realizá-la que eles nos falam quando entregam o novo centro para o Rio. Como se dissessem, pela via da expressão cultural que ele abrigará: a gente quer comida, diversão, arte, direitos e oportunidades – cidade inteira, e não pela metade. Ou, em uma conversão de palavras/sentidos que Waly haveria de aprovar, cidade afinal repartida, compartilhada.
Vídeo:

Muito bom André.
Parabéns pela clareza da construção do seu texto. Me identifico com essa narrativa na primeira pessoa, participando dos acontecimentos narrados. É o meu estilo favorito. Honras aos resultados alcançados pelo trabalho do Afroreggae e a Wally Salomão. Eu sei o que esse texto significa pra você e sei o que significa pra você… ter escrito ESSE texto. Logo, eu sou uma amiga que sabe. rsrs
Beijo com carinho.
Marfiza, AM 01/06/2010 às 01:50
Parabéns, André!
Vida longa e produtiva ao novo centro cultural e sua equipe.
Joyce, PM 01/06/2010 às 21:45
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